2.26.2006

O carnaval e a cristandade

A disparidade de opiniões a respeito da origem do carnaval é tão grande que seria ocioso numerá-las. Entretanto, como pode servir de lição e como é bem documentado, vale a pena mostrar o modo como ele e o cristianismo passaram a conviver.

Logo no início de sua existência, a Igreja sofreu acusações de fraude. A primeira delas está na própria Bíblia, que registra o suborno recebido pelos guardas para dizer, que, enquanto dormiam, os discípulos de Jesus roubaram seu corpo. Não é difícil perceber que a melhor maneira de rebater tais acusações foi celebrar essas datas históricas. Em Atos 20.16 e em 1Co 16.8, vemos Paulo tomando o dia de pentecostes como uma data conhecida o suficiente para marcar eventos antes e depois dela. Isso deve ser visto por nós hoje com mais atenção uma vez que naqueles dias não se dispunha de calendários com facilidade.

Com a expansão do cristianismo, já religião oficial, muitos povos eram coagidos pela força a “se converterem”. Só que, como era uma conversão nominal, eles traziam muitas crenças e práticas pagãs que influenciaram em muito as crenças e práticas cristãs. O carnaval foi uma dessas práticas.

Como os Evangelhos dão especial destaque a última semana de Cristo, ela passou a ser observada com mais atenção ao ponto de ser chamada de Semana Santa. E, inicialmente, os 40 dias que precedem a páscoa eram vistos como uma preparação para melhor se entender o sacrifício de Cristo.

Não demorou muito para que se criasse uma série de ritos e práticas que visavam a facilitar - pelo menos essa era a razão alegada - uma preparação adequada do cristão. Entre tais práticas estava um jejum. Na maioria dos lugares era apenas um jejum daquelas coisas que se poderia passar sem elas. Alguns limitavam-se a comer pão e beber apenas água e outros iam até o consumo de peixes. A carne era proibida.

Ora, os que eram coagidos a tais práticas, começaram a “se despedir” dos dias normais com grandes festas (que coincidiram com festejos de outros povos), nas quais os excessos eram tolerados e perdoados com a confissão em cinzas no dia imediatamente anterior ao período de jejum. Por essa razão, até hoje, a quarta-feira de cinzas é o dia do católico romano se confessar e receber uma marca feita com as cinzas dos ramos que foram usados no domingo de ramos do ano anterior.

Obviamente, esses excessos, para os quais se fazia vistas grossas, deviam ter sido imediatamente combatidos. Creio que uma alusão a este combate pode ser vista em Romanos 13.13 (Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias ... ). Observe a c
ondenação explícita de orgias. O texto se refere ao que era conhecido por ‘komos’, que era exatamente uma parada carnavalesca em homenagem a Baco (também chamado Dionísio), onde todos os excessos estavam presentes.

Talvez possamos dizer que a intenção inicial foi até boa. Entretanto nenhum de nós negará o quanto ela foi desvirtuada. Desvirtuada ao ponto de ser irreconhecível.

O carnaval deve servir de aviso a todos nós: quando uma prática ou um rito perde seu sentido e passa a ser observado mecanicamente (ou pior: forçadamente), terá o mesmo fim.

Há muitos anos os protestantes brasileiros “acampam” durante o período de carnaval. Muitos fogem das confusões da festa nos grandes centros, outros procuram um momento de reflexão sobre a vida cristã. Não deixemos que esses propósitos sejam desvirtuados.

12.17.2005

narnia

Uma família assistindo o Leão a Feiticeira e o Guarda-roupa.

5.29.2005

Adoração Cristã: Análise de modelos (parte 1)

Procurando o que se entende por adoração cristã em nossos dias, me deparei com uma série de práticas que por falta de nomenclatura resolvi eu mesmo nomeá-las.

1. A Adoração do Altar;
2. A Adoração da Mesa;
3. A Adoração do Encontro;
4. A Adoração do Show.



A Adoração do Altar
Atualmente está ramificada em várias linhas; seu tronco básico encontra-se bem exemplificado na figura 1.

.


Veja a figura 1: Sua forma diz muito. Na parte inferior estão representadas pessoas comuns. No canto inferior esquerdo, observadores dos acontecimentos desencadeados pelas pessoas comuns do canto inferior direito, que são aqueles que “encomendaram” o evento. Observe que o evento está representado em uma linha diagonal ascendente que vai do canto inferior direito até o canto superior esquerdo e reflete-se em uma abóbada superior.

Logo após os “encomendantes”, vestidos de preto, observa-se uma série de clérigos, dispostos na orientação da diagonal ascendente que, pela ornamentação das roupas, revela-nos o grau de importância de cada ofício que está sendo desempenhado.

Os três primeiros (talvez quatro), de branco, de pé, maravilham-se, quase em êxtase, com a visão. Três sobre a primeira plataforma acima do nível do piso, ricamente vestidos, prostrados, dão assistência ao que apresenta uma hóstia a uma imagem da virgem Maria
[1].

Se imaginarmos uma linha horizontal na altura da estátua da virgem Maria, teremos uma divisão no quadro. Na parte inferior da linha teremos o que acontece no mundo material e na parte superior tudo o que ocorre no mundo espiritual, colocando Maria como intermediária entre os dois mundos
[2].

Sobre a estátua da virgem Maria, encoberto aos olhos dos que povoam o mundo material, há três grupos distintos. Dois num mesmo nível e o terceiro, ao centro, mais elevado, compondo assim a forma que orientará a forma física da pintura que é um retângulo vertical encimado por um semicírculo, quase que como uma porta no estilo arquitetônico romano
[3].

O primeiro grupo, sobre as nuvens, é composto por um ser espiritual, que com os braços cruzados, coloca as mãos sobre as cabeças de dois homens: um deles de vermelho e outro de azul. Tal gesto lembra a bênção de Jacó aos filhos de José
[4], porém não sei o que está sendo simbolizado aí.

O ser espiritual, conforme a representação daqueles dias parece ser um anjo, embora em nenhuma passagem bíblica haja descrição de anjo com asas.

O segundo grupo, no lado oposto, parece ser a representação dos seres que o profeta Isaías chamou de Serafins
[5], embora nenhum deles possua seis asas como Isaías descreveu.

Finalmente no terceiro grupo, claramente quatro crianças sustentando uma esfera, pode ser uma representação dos querubins citados pelo profeta Ezequiel, sem respeitar a descrição que ele faz de suas quatro asas, quatro lados, quatro faces, etc
[6]. Sobre a esfera, que provavelmente represente o mundo, vemos Jesus, com vestes vermelhas (na realidade, cor de rosa), aludindo a seu sofrimento, e Deus vestido com roupas azuis.

Observe que as pessoas sob o nível da virgem estão todas olhando pra cima, extasiados como quem vê maravilhas. Em verdadeiro estado de espanto. A expressão do sacerdote que levanta a hóstia denuncia um pouco de temor e as dos demais fala de admiração. Contrastando, as expressões dos habitantes do mundo espiritual falam de serenidade e Deus e Jesus olham para baixo.

A luz também nos dá lições admiráveis. Embora o mundo material esteja sendo iluminado pela luz que entra pela porta através da qual vemos a cena, que é o próprio quadro, o clero encontra-se mais iluminado que os ofertantes, que por sua vez destacam-se da sombra em que os circunstantes estão imersos.

Porém, a luz maior, que chega a fazer sombra na testa, iluminada, do primeiro clérigo vestido de branco, provém do mundo espiritual, onde as conseqüências do que se processa na terra transcorrem em glória ímpar.

Agora observe as atenções. Todos, do mundo material, voltam suas atenções para estátua da virgem Maria. O que é uma espécie de contra-senso, pois se são iluminado por uma luz divina é para ela que deveria voltar seus olhares.

Tem-se a ligeira impressão que os circunstantes, do canto inferior esquerdo, presenciam a cena como um todo e podem ver desde os ofertantes até o mais alto do mundo espiritual. Seria uma alusão a 1Co 14.23-15? Se é, o texto foi mal interpretado, pois lá fala de circunstantes (indoutos ou infiéis), porém o que ele s vêem não é uma cena como a que a pintura descrê, mas “todos profetizando
[7]

Também é possível vislumbrar não uma cena particular, com apenas as pessoas que aparecem na pintura, os rostos que aparecem atrás do ofertantes, por não estarem completamente pintados, nos remetem a idéia de que pro trás deles há vária pessoas. O que sugere que o quadro mostra uma cena que ocorre na frente de uma congregação. A janela que aparece ao fundo mostrando uma paisagem de terraço parece contribuir com essa interpretação.

Finalmente observe o quanto o altar é importante, não apenas na organização da estrutura pictórica, mas também na organização da “teologia deste culto”. Ele é o centro. Ele suporta os sacerdotes que fazem a ponte entre os ofertantes e a virgem
[8]. Ele suporta a estátua que intermédia as relações entre o mundo espiritual e material[9]. Tudo gira em torno dele. Até mesmo os rostos de do Pai e do Filho voltam-se para ele. Nesse tipo de culto, tudo depende da intermediação do altar.

É interessante observar como algumas igrejas protestantes, não se aperceberam da heresia que está associada a esta prática e, mesmo que não coloquem uma estátua da virgem Maria, mantêm um altar. Muitas vezes com uma Bíblia aberta, mas é um altar.


A Adoração da Mesa

De um modo geral este tipo de adoração pode ser visto com mais freqüência nos meios protestantes, porem sua origem está nas igrejas cujos templos são imitações arquitetônicas das grandes catedrais que foram semi-adaptadas por ocasião da Reforma Protestante.

Para que eu consiga explicar bem há que fazer um pequeno retrospecto.

As Igrejas Católicas usam separar a parte frontal da nave, da parte usada pelos fiéis. A esta separação a que chamam de capela maior ou presbitério. Geralmente nesta capela maior celebram-se eventos especiais como ordenações, concílios e outros.

Na figura 2, temos a Igreja da Abadia de St. Gallen, que mostra claramente a divisão a que me refiro, pois há uma verdadeira grade de ferro adornada com motivos dourados separando as duas áreas.

Geralmente a parte maior da nave, em que ficam os Leigos
[10], fica voltada para uma mesa, da qual a Santa Ceia é distribuída.

Essa mesa pode, as vezes, na liturgia Católico Romana ser confundida com o altar e ser chamada assim. Entretanto ela passa a ser vista no protestantismo como um sinal de que os sacramentos são o centro do culto, a tal ponto que na Igreja Anglicana, o movimento que a fez voltar ao culto mais “ritualístico” foi chamado de sacramentalista.

Nos diversos ramos do protestantismo a mesa, ocupando uma posição de destaque na frente e no centro, é quase que uma declaração de que a Santa Ceia é o mais importante ato litúrgico celebrado naquela comunidade.

Quando a mesa ocupa o centro ela determina os demais lugares: o púlpito passa a ser lateral ou ficar atrás dela. O espaço para o coral, ou para qualquer outro tipo de música, dificilmente fica antes dela (quando isso acontece é necessário uma espécie de “fosso” com nos teatros), ou fica ao lado ou atrás. Em poucas Igrejas no Brasil eu vi o coral na galeria.

Na maioria dos templos, católicos ou protestantes, a mesa fica, pelo menos um degrau acima do piso comum, e nas poucas vezes que a vi colocada no mesmo nível do piso tal ato foi feito propositalmente, para transmitir à congregação a idéia de que todos estão ao redor da mesa.

Essa idéia da importância da mesa já está presente nas primeiras liturgias cristãs quando se previa a “liturgia da Mesa” e a “Liturgia da Palavra”.


A Adoração do Encontro

A análise deste tipo requer uma atenção especial nos extremos, já que neles encontramos quem veja os encontros para adoração como um encontro qualquer, que podem ser feitos no meio de um encontro social, esportivo (geralmente no mesmo lugar), e uma linha puritana muito definida que revestia tais momentos de importância tão grande que só deveriam participar deles aqueles que adoravam a Deus no dia-a-dia com o que Paulo chama de Culto Racional. O templo da Igreja de Norwall é um bom exemplo disso.


A Adoração do Show.

Gosto de pensar neste tipo de celebração, como uma conseqüência dos acontecimentos a que a Igreja foi exposta ao longo dos séculos.

No Século IV de nossa era, Agostinho questionava-se sobre a utilidade do canto na Igreja
[11], e já percebia certa ênfase no aspecto show.

Certamente este aspecto só desenvolveu-se à medida que desenvolviam-se também as artes, em alguns séculos, praticamente, patrocinadas apenas pela Igreja.

Ora é bem sabido que Gregório, não suportando mais a situação, estabeleceu normas muito rígidas para a liturgia, e, dessas normas, a que mais nos atingiu foi a que versava sobre a música. Ele estabelecera o que conhecemos hoje como cantochão.

Por ocasião da Reforma Protestante, Lutero, hábil músico, querendo fugir às imposições de Roma (especialmente por que só havia variedade musical, as letras eram sempre repetições de formulas estabelecidas e rígidas), tomou muitas músicas cantadas pelos peregrinos (na época movimento fora da jurisdição Papal), e, estabelecendo uma nota para cada sílaba, criou o que veio a ser chamado de Coral Alemão.

Calvino, mais cauteloso, contratou um poeta para metrificar os cento e cinqüenta Salmos e depois um músico que lhes desse melodias, e estabeleceu assim o Saltério de Genebra.

Ora, a grande revolução musical que chega, um século depois com o contraponto, já tinha diversas fontes: As antigas músicas da Igreja, os cantos gregorianos (ou contochão), a hinódia luterana e o saltério de Genebra.

Obviamente a hinódia luterana destacou-se pelo fato de que Johann Sebastian Bach era luterano, e compôs uma obra monumentalmente grande.

Pesa também o fato de que ao “temperar” o piano, praticamente abriu o campo para que a música saísse das dimensões do contraponto e ganhasse maior capacidade de transmitir impressões.

Em reação à Reforma Protestante, a Igreja Católica Romana, já havia estabelecido, no período que chamamos hoje de contra-reforma, alguns rumos que só aumentaram a busca pelo espetacular. As missas compostas por grandes mestres, passaram a ser verdadeiras exibições de técnica musical.

Ao tentar romper com o que estava estabelecido a música que se seguiu, seja a erudita como a popular, viu no público o único patrocinador. Daí, como aconteceu nos diversos ramos da arte, e do conhecimento humano em geral, voltou-se para aquilo que o público deleitava-se consumir.

A ausência de suporte financeiro para a sobrevivência de quem produzia arte, deixou apenas uma saída: produzir arte de acordo com o gosto e com as posses de quem podia pagar. Ainda assim muito cara, produzir-se em rateio, mediante a venda do mesmo produto para muitos compradores. Era a arte industrializada.

Se no começo houve demora na absorção, hoje ela dificilmente é produzida com exclusividade. As pinturas são, pelo menos, gravuras reproduzidas em série. A música é vendida em cópias e quanto maior for o número de consumidores de uma mesma música melhor.

Ora essa orientação da arte, que deixa de atender a um encomendante e passa atender a vários, repercute-se em tudo aquilo que se produz. A Igreja não fica isenta. A idéia de adorar a um Deus que demanda tal adoração, além de etérea passa a ser estranha, e, de certa forma, egoísta ao pensamento humano de nosso tempo. Daí surge a adoração horizontalizada em que o encontro, mesmo proclamando a intenção de se adorar a um ser supremo, é feito par agradar a quem comparece a lá.

Todas as partes da adoração passam a ser orientadas para o gosto do adorador.



-----

[1] Aqui já está uma divergência fundamental das doutrinas bíblicas, expostas claramente pela Reforma Protestante, especialmente quanto a doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes em que cada um é sacerdote de si mesmo diante do sumo-sacerdote Jesus.
[2] Outra doutrina bíblica é atacada aqui. Desta vez, a que fica explícita na palavra do Apóstolo Paulo: “Há um só mediador entre Deus e os homens. Cristo Jesus homem”.
[3] Além da sucessão de elevações que mais do que servem de apoio a diagonal orientativa do quadro, a presença de um altar diante do qual, de costa para os ofertantes, o sacerdote sobre para oferecer sacrifício, revela não apenas traços do culto judeu, cumprindo e finado em Cristo, como também reforça a idéia trazida pela forma do quadro, que como uma porta que abrindo-se revela ao que observa um ato físico e uma hierarquia estabelecida que ao funcionar causa repercussões sobrenaturais, evocando assim o sentido de magia das religiões pagãs.
[4] Gn 48.13-14
[5] Is 6
[6] Veja especialmente Ez 10
[7] Analisarei melhor esta expressão em xxx
[8] De certa forma revela-nos ironicamente que são sacerdotes da estátua da virgem e não do altíssimo.
[9] Isso mostra-nos claramente que a idéia do símbolo (estátua), neste quadro, é a de ser a parte visível e palpável do mundo invisível e impalpável e não apenas uma representação dele.
[10] Uso aqui esse termo no sentido que a Igreja Católica o usa.
[11] Agostinho. Confissões xxx